A Relação entre Marido e Mulher à Luz da Bíblia
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A Relação entre Marido e Mulher à Luz da Bíblia

Este artigo examina a relação entre marido e mulher à luz das Escrituras Sagradas, tendo por base a versão Almeida Corrigida Fiel (ACF). A partir da narrativa da criação em Gênesis, são analisados os fundamentos divinos do matrimônio, os deveres e responsabilidades de cada cônjuge e o propósito eterno da aliança matrimonial.

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Resumo

Este artigo examina a relação entre marido e mulher à luz das Escrituras Sagradas, tendo por base a versão Almeida Corrigida Fiel (ACF). A partir da narrativa da criação em Gênesis, são analisados os fundamentos divinos do matrimônio, os deveres e responsabilidades específicos do marido e da esposa, os direitos recíprocos no âmbito conjugal, o amor como princípio norteador da relação, o simbolismo do casamento como representação da união entre Cristo e a Igreja, as advertências bíblicas sobre o divórcio e as marcas de um relacionamento conjugal aprovado por Deus. Conclui-se que a Bíblia apresenta um modelo de matrimônio baseado no amor sacrificial, no respeito mútuo, na fidelidade e na submissão voluntária, no qual marido e mulher são coerdeiros da graça da vida e refletem, em sua união, o mistério do amor de Cristo pela Sua Igreja.

1 INTRODUÇÃO

O casamento é uma das instituições mais antigas e fundamentais da humanidade, tendo sido estabelecido pelo próprio Deus no princípio da criação. Antes mesmo da queda do homem, antes do pecado e da morte entrarem no mundo, Deus já havia instituído o matrimônio como a primeira e mais básica das relações humanas (Gênesis 2:18-24). Em toda a Escritura Sagrada, desde o Gênesis até o Apocalipse, o casamento é tratado não como uma mera convenção social, mas como uma aliança sagrada estabelecida diante de Deus, dotada de propósitos espirituais, sociais e emocionais profundos.

Nos dias de hoje, em meio a uma sociedade que relativiza o conceito de família, redefine o casamento e desconsidera os princípios bíblicos que o fundamentam, torna-se urgente retornar às Escrituras para compreender o que Deus realmente ensina sobre a relação entre marido e mulher. Este artigo propõe-se a examinar, exclusivamente com base na Bíblia Sagrada (versão Almeida Corrigida Fiel), os direitos e deveres de ambos os cônjuges e o modelo de relação matrimonial que é aprovado à luz da Palavra de Deus.

O artigo estrutura-se em oito seções principais: primeiramente, analisa-se a origem divina do matrimônio; em seguida, examinam-se os deveres do marido, os deveres da esposa e os direitos recíprocos no casamento; depois, discute-se o amor como fundamento da relação conjugal, o simbolismo do casamento como representação de Cristo e a Igreja, as advertências bíblicas sobre o divórcio e, por fim, as marcas do relacionamento conjugal que agrada a Deus.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 A Origem Divina do Matrimônio

O fundamento de toda a teologia bíblica do casamento encontra-se nos primeiros capítulos de Gênesis. Em Gênesis 1:27-28, lemos: "E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a". Aqui já se revelam verdades fundamentais: tanto o homem quanto a mulher foram criados à imagem de Deus, dotados da mesma dignidade essencial e chamados conjuntamente ao mandato cultural de povoar e administrar a terra.

Em Gênesis 2:18, Deus declara: "Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele". A expressão hebraica "ezer kenegdo" (עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ) significa literalmente "uma ajudadora como diante dele" ou "uma auxiliadora que lhe corresponda". Longe de denotar inferioridade, o termo "ezer" é usado em outros lugares para descrever o próprio Deus como o "auxílio" de Israel (Salmo 33:20; 115:9). A mulher foi criada como parceira correspondente, igual em essência e complementar em função.

O relato da criação da mulher a partir da costela de Adão (Gênesis 2:21-23) é rico em simbolismo. Deus não formou a mulher da cabeça do homem, para que não o dominasse, nem dos pés, para que não fosse por ele pisada, mas de seu lado, para que fosse sua companheira igual, próxima ao seu coração. Ao ver a mulher, Adão exclama: "Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne" (Gênesis 2:23), reconhecendo nela sua igualdade e identidade compartilhada. O texto conclui com o princípio fundador do casamento: "Portanto, deixará o homem o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à sua mulher, e serão uma só carne" (Gênesis 2:24). Este versículo estabelece três elementos essenciais do matrimônio bíblico: o desligamento dos laços parentais ("deixará"), a união permanente ("apegar-se-á") e a intimidade consumada ("serão uma só carne").

Jesus Cristo, em Mateus 19:4-6, confirma e reitera este fundamento: "Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe e apegar-se-á à sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem". Jesus retorna ao propósito original da criação para afirmar a indissolubilidade do vínculo matrimonial, estabelecendo que o casamento não é uma instituição humana, mas uma obra divina: "o que Deus ajuntou".

2.2 Os Deveres do Marido

A Bíblia atribui ao marido responsabilidades específicas que definem seu papel na relação conjugal. Estas responsabilidades não são privilégios de dominação, mas mandamentos de amor, sacrifício e liderança servil.

O texto mais completo sobre os deveres do marido encontra-se em Efésios 5:25-33. Paulo ordena: "Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela" (Efésios 5:25). Este é o padrão supremo do amor conjugal: o amor de Cristo pela Igreja. Cristo amou a Igreja de forma sacrificial ("entregou-Se"), purificadora ("para a santificar") e provedora ("para a apresentar a si mesmo"). O marido é chamado a amar sua esposa com a mesma intensidade, dispondo-se ao sacrifício pessoal pelo bem-estar espiritual, emocional e material dela.

Paulo continua: "Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja" (Efésios 5:28-29). O apóstolo estabelece que o amor do marido pela esposa deve ser tão natural e cuidado como o amor que cada pessoa tem por seu próprio corpo. Isto implica provisão material, cuidado emocional e sustento espiritual. O marido que não provê para sua família é comparado ao infiel: "Se alguém não cuidar dos seus e principalmente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel" (1 Timóteo 5:8).

Pedro, por sua vez, exorta os maridos: "Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como ao vaso mais fraco, como sendo vós os seus coerdeiros da graça da vida, para que não sejam impedidas as vossas orações" (1 Pedro 3:7). Três aspectos destacam-se aqui. Primeiro, o marido deve conviver com "entendimento" ou "conhecimento" — compreendendo as particularidades de sua esposa, suas necessidades e sua forma de ser. Segundo, deve "dar honra" à mulher, tratando-a com dignidade, respeito e consideração. A expressão "vaso mais fraco" não se refere a inferioridade moral ou intelectual, mas à diferença física que exige proteção e cuidado, não dominação. Terceiro, ambos são "coerdeiros da graça da vida" — há absoluta igualdade espiritual diante de Deus. A consequência de não honrar a esposa é grave: as orações do marido serão impedidas.

Colossenses 3:19 resume de forma direta: "Vós, maridos, amai vossas mulheres e não vos irriteis contra elas". O amor é ordenado; a aspereza e a irritação constantes são proibidas. O marido bíblico é chamado a ser um líder servidor, que ama como Cristo, honra como a coerdeira, provê como mordomo e protege como guardião.

2.3 Os Deveres da Esposa

As Escrituras também estabelecem responsabilidades específicas para a esposa, sempre no contexto de uma relação de amor, respeito e parceria.

Em Efésios 5:22-24, Paulo escreve: "As mulheres sejam sujeitas a seus próprios maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele o Salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos". A palavra "sujeitar" (hypotassô, em grego) não significa submissão forçada ou inferioridade de valor, mas um ordenamento voluntário e amoroso. É crucial ler este texto no contexto imediato: o verso 21 estabelece o princípio geral de "sujeitai-vos uns aos outros no temor de Deus", indicando que a submissão é mútua na comunidade cristã. A submissão da esposa é uma resposta ao amor sacrificial do marido, e não uma imposição arbitrária.

Tito 2:4-5 ensina que as mulheres mais velhas devem "instruir as mulheres jovens a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, a serem moderadas, castas, boas donas de casa, boas, sujeitas a seus maridos, para que a palavra de Deus não seja blasfemada". Nota-se aqui que o primeiro mandamento à esposa é amar o marido (philandros), e o segundo, amar os filhos (philoteknos). A submissão aparece no contexto mais amplo de virtudes que edificam o lar e preservam o testemunho cristão diante do mundo.

Primeiro Pedro 3:1-6 oferece orientações adicionais: "Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos, para que também, se alguns não obedecem à palavra, pelo procedimento de suas mulheres sejam ganhos sem palavra". Pedro enfatiza a importância do testemunho silencioso e da conduta virtuosa sobre a aparência externa: "o seu enfeite não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de joias de ouro, na composição das vestes, mas o homem encoberto no coração, no incorruptível trajo de um espírito manso e pacífico, que é precioso diante de Deus" (1 Pedro 3:3-4). Ele conclui exaltando a beleza interior e a confiança em Deus como as verdadeiras marcas da mulher piedosa.

Provérbios 31:10-31 apresenta o retrato da "mulher virtuosa" (êchet chayil), descrita como alguém cujo "valor muito excede ao de rubis" (Provérbios 31:10). Longe de ser passiva ou submissa, ela é retratada como ativa, empreendedora e sábia: "busca lã e linho e trabalha de boa vontade com suas mãos... abre a sua mão para o pobre e estende as suas mãos ao necessitado... a boca da sabedoria abre e a lei da beneficência está na sua língua" (Provérbios 31:13, 20, 26). Seu marido confia nela plenamente, e ela lhe faz bem e não mal todos os dias de sua vida (Provérbios 31:11-12). A mulher virtuosa é louvada não por sua submissão passiva, mas por sua força, sabedoria, laboriosidade e temor ao Senhor.

2.4 Direitos Recíprocos no Casamento

A Bíblia não trata apenas dos deveres de cada cônjuge, mas também dos direitos que ambos possuem na relação conjugal. Primeiro Coríntios 7:1-5 é o texto mais explícito sobre este aspecto. Paulo ensina que o casamento envolve direitos mútuos que devem ser honrados: "O marido pague à mulher a devida benevolência, e da mesma maneira a mulher ao marido. A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido; e também, da mesma maneira, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher" (1 Coríntios 7:3-4).

Este texto é revolucionário para o seu contexto histórico. Paulo afirma que a intimidade conjugal não é um direito unilateral do marido sobre a esposa, mas um direito recíproco: ambos têm poder sobre o corpo do outro. A palavra "benevolência" (opheilên, em grego) significa literalmente "dívida" ou "aquilo que é devido". Há, portanto, uma dívida conjugal de cuidado, afeto e intimidade que ambos os cônjuges têm o direito de esperar e o dever de oferecer.

Paulo prossegue: "Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo, por algum tempo, para vos aplicardes ao jejum e à oração; e depois ajuntai-vos outra vez, para que Satanás não vos tente pela vossa incontinência" (1 Coríntios 7:5). A privação da intimidade conjugal só é permitida mediante acordo mútuo, por tempo limitado e com propósito espiritual específico. Isto sublinha a importância da comunicação, do consentimento e da consideração mútua na vida conjugal.

O direito à companhia, ao afeto e ao cuidado não é apenas emocional, mas também prático. Malaquias 2:14-16 adverte contra a infidelidade e o divórcio, lembrando que a mulher é "a companheira da tua aliança". A palavra "companheira" (chabereth) denota parceira, amiga e igual. Além disso, o texto diz que Deus "ódio o divórcio" (Malaquias 2:16), indicando que o direito do cônjuge à estabilidade e à segurança da aliança matrimonial é protegido pelo próprio Deus.

2.5 O Amor como Fundamento da Relação Conjugal

O amor é o princípio fundamental que deve nortear toda a relação entre marido e mulher. Em Efésios 5, Paulo estabelece que o amor do marido pela esposa deve ser modelado pelo amor de Cristo pela Igreja — um amor sacrificial, purificador, provedor e fiel. Este amor não é meramente emocional ou romântico; é um amor de vontade e ação, que se expressa em atos concretos de serviço e doação.

O apóstolo João define a essência do amor divino: "Nós amamos porque ele nos amou primeiro" (1 João 4:19) e "Deus é amor" (1 João 4:8). No contexto conjugal, isto significa que o amor entre marido e mulher é uma resposta ao amor de Deus e uma expressão terrena do amor divino. O amor ágape — o amor sacrificial e incondicional — é aquele que deve permear o relacionamento. Primeira Coríntios 13 descreve este amor com detalhes: "O amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1 Coríntios 13:4-7).

O livro de Cantares de Salomão é o poema bíblico do amor conjugal, celebrando a intimidade, o desejo e a beleza do amor entre o esposo e a esposa. Cantares 8:6-7 declara: "Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e o ciúme é cruel como a sepultura; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar o amor, nem os rios afogá-lo. Ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam". Este texto exalta a força, a beleza e o valor inestimável do amor conjugal. Provérbios 5:18-19 exorta o marido a alegrar-se com a esposa de sua juventude: "Seja bendito o teu tanque, e alegra-te com a mulher da tua mocidade. Como a corça amável e a graciosa cabra, os seus seios te saciem em todo o tempo; e pelo seu amor sejas enlevado perpetuamente".

Colossenses 3:14 resume: "E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição". O amor é o vínculo que une e aperfeiçoa todas as demais virtudes na relação conjugal. Sem ele, os deveres tornam-se cargas e os direitos tornam-se exigências. Com ele, marido e mulher experimentam a união que Deus planejou desde o princípio.

2.6 O Casamento como Símbolo da Relação entre Cristo e a Igreja

Uma das revelações mais sublimes sobre o casamento nas Escrituras é que ele foi designado por Deus para ser um símbolo vivo da relação entre Cristo e Sua Igreja. Em Efésios 5:31-32, Paulo, após citar Gênesis 2:24, declara: "Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja". O apóstolo revela que o padrão original do casamento em Gênesis apontava profeticamente para o mistério da união entre Cristo e os Seus redimidos.

Cristo é apresentado como o Noivo que ama, purifica e se sacrifica pela Sua Noiva (a Igreja). João Batista refere-se a Jesus como o "Noivo" e a si mesmo como "amigo do noivo" (João 3:29). Apocalipse 19:7-9 proclama: "Regozijemo-nos e alegremo-nos e demos-lhe glória, porque vieram as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou". O casamento é, portanto, uma parábola viva do evangelho: assim como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, o marido é chamado a amar sua esposa; assim como a Igreja se sujeita a Cristo, a esposa é chamada a respeitar e apoiar seu marido.

O profeta Oseias é um exemplo dramático desta verdade. Deus ordena a Oseias que se case com Gomer, uma mulher adúltera, como símbolo do amor de Deus por Israel, que fora infiel (Oseias 1:2; 3:1). Através do sofrimento e da fidelidade do profeta, Deus demonstra Seu amor incondicional por Seu povo. O casamento, mesmo em suas dificuldades, é um instrumento para revelar o caráter de Deus ao mundo.

Hebreus 13:4 declara: "Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; aos que se dão à prostituição e aos adúlteros Deus os julgará". O casamento é digno de honra porque é uma instituição divina que reflete a aliança eterna de Deus com Seu povo. A fidelidade conjugal é, portanto, um reflexo da fidelidade divina, e a infidelidade conjugal é uma violação grave que atenta contra este símbolo sagrado.

2.7 Advertências sobre o Divórcio e a Infidelidade

A Bíblia não ignora a realidade dos conflitos conjugais, mas adverte solenemente contra o divórcio e a infidelidade. Em Malaquias 2:14-16, o Senhor declara que odeia o divórcio: "Porque o Senhor, o Deus de Israel, diz que odeia o repúdio, embora aquele que repudiar cubra a injustiça com a sua veste, diz o Senhor dos Exércitos". Deus é apresentado como testemunha da aliança matrimonial, e a quebra desta aliança é tratada como violência e perfidia.

Jesus, em Mateus 19:3-9, é questionado pelos fariseus sobre a legalidade do divórcio. Sua resposta remete à ordem original da criação: "Moisés, por causa da dureza do vosso coração, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim" (Mateus 19:8). Jesus reconhece que a lei mosaica tolerou o divórcio devido à dureza do coração humano, mas aponta para o ideal original da indissolubilidade. Ele estabelece uma exceção: "Qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério" (Mateus 19:9). A infidelidade sexual (à qual o termo "fornicação"/porneia se refere) é apresentada como a única base que permite o divórcio.

O apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 7:10-16, aborda situações adicionais. Aos casados, ordena não separar-se (1 Coríntios 7:10-11). Aos casamentos mistos (crente com não crente), ele instrui que, se o não crente quiser permanecer, o crente não deve divorciar-se, pois "o marido incrédulo é santificado pela mulher" (1 Coríntios 7:14). Contudo, "se o incrédulo se apartar, aparte-se; porque para tais necessidades o irmão ou a irmã não estão sujeitos à servidão" (1 Coríntios 7:15).

O sétimo mandamento do Decálogo é inequívoco: "Não adulterarás" (Êxodo 20:14). O adultério é tratado nas Escrituras como um pecado grave contra Deus, contra o cônjuge e contra a aliança. Provérbios 6:32 adverte: "O que adultera com uma mulher é falto de entendimento; destrói a sua alma o que tal faz". Hebreus 13:4 reforça que "aos que se dão à prostituição e aos adúlteros Deus os julgará". A fidelidade conjugal não é opcional para o cristão; é um mandamento divino que protege a santidade do casamento e a integridade da família.

2.8 O Relacionamento Conjugal Aprovado por Deus

Após examinar os diversos aspectos do ensino bíblico sobre o casamento, podemos identificar as marcas de um relacionamento conjugal que é aprovado à luz da Palavra de Deus.

Primeiramente, o casamento aprovado por Deus é um casamento de aliança. Em Provérbios 2:17, o casamento é descrito como "a aliança de Deus". Isto significa que o vínculo conjugal não é apenas um contrato social que pode ser desfeito quando uma das partes se sente insatisfeita, mas uma aliança sagrada feita na presença de Deus, que une o casal até que a morte os separe (Romanos 7:2-3). A aliança implica compromisso, fidelidade e permanência.

Em segundo lugar, o casamento aprovado é marcado pelo amor sacrificial e respeito mútuo. O marido ama como Cristo amou a Igreja (Efésios 5:25), e a esposa respeita e apoia o marido (Efésios 5:33). Ambos se sujeitam um ao outro no temor de Deus (Efésios 5:21). Não há lugar para dominação tirânica ou submissão forçada; há serviço mútuo, honra recíproca e cuidado amoroso.

Em terceiro lugar, o casamento aprovado é caracterizado pela fidelidade exclusiva. O sétimo mandamento (Êxodo 20:14), a advertência de Provérbios contra o adultério (Provérbios 5:15-20; 6:27-35) e o ensino de Jesus (Mateus 5:27-28) estabelecem que a fidelidade não é apenas física, mas também mental e emocional. O casamento aprovado por Deus é monogâmico, heterossexual e vitalício, conforme o padrão original estabelecido em Gênesis.

Em quarto lugar, é um casamento onde ambos são coerdeiros da graça. Pedro declara que marido e mulher são "coerdeiros da graça da vida" (1 Pedro 3:7), indicando que há plena igualdade espiritual diante de Deus. Gálatas 3:28 confirma: "Nisto não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus". No plano espiritual, não há hierarquia; ambos têm acesso igual à salvação, aos dons espirituais e à presença de Deus.

Em quinto lugar, é um casamento que glorifica a Deus. A união conjugal foi criada para refletir a glória de Deus ao mundo. Quando marido e mulher se amam, se respeitam e vivem em fidelidade e harmonia, eles demonstram ao mundo o amor de Cristo pela Igreja (Efésios 5:32). O casamento cristão é, portanto, uma ferramenta evangelística e um testemunho do poder transformador do evangelho.

O Salmo 128, o "salmo da família bem-aventurada", retrata a bênção divina sobre o lar que teme ao Senhor: "Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor e anda nos seus caminhos. Pois comerás do trabalho das tuas mãos, feliz serás, e te irá bem. A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa" (Salmo 128:1-3). Este salmo condensa a promessa de Deus para aqueles que edificam seu lar sobre o fundamento da Sua Palavra.

3 CONCLUSÃO

Ao longo deste artigo, examinou-se a relação entre marido e mulher fundamentada exclusivamente nas Escrituras Sagradas. O casamento, conforme revelado na Bíblia, não é uma invenção humana, mas uma instituição divina estabelecida por Deus no Éden, antes da entrada do pecado no mundo (Gênesis 1:27-28; 2:18-24). Desde o princípio, Deus determinou que o homem e a mulher fossem parceiros iguais em dignidade, complementares em suas diferenças e unidos em uma aliança vitalícia.

A Bíblia atribui ao marido a responsabilidade de amar sua esposa como Cristo amou a Igreja — com amor sacrificial, provedor, protetor e santificador (Efésios 5:25-33). Deve honrá-la como coerdeira da graça, tratar-lhe com entendimento e jamais irar-se contra ela (1 Pedro 3:7; Colossenses 3:19). À esposa, as Escrituras atribuem o papel de auxiliadora idônea, parceira fiel, administradora sábia do lar e submissa voluntária à liderança amorosa do marido (Efésios 5:22-24; Provérbios 31; Tito 2:4-5).

Os direitos recíprocos são claramente afirmados: ambos têm poder sobre o corpo do outro e devem pagar a devida benevolência conjugal (1 Coríntios 7:3-5). O amor é apresentado como o fundamento e o vínculo da perfeição na relação conjugal (1 Coríntios 13; Colossenses 3:14), e o casamento é elevado à condição de símbolo vivo da união entre Cristo e a Igreja (Efésios 5:31-32; Apocalipse 19:7-9).

As Escrituras adverte solenemente contra o adultério (Êxodo 20:14; Provérbios 6:32; Hebreus 13:4) e contra o divórcio (Malaquias 2:16; Mateus 19:3-9), chamando os cônjuges à fidelidade e à perseverança na aliança. O relacionamento conjugal aprovado por Deus é aquele que se fundamenta na aliança, no amor sacrificial, no respeito mútuo, na fidelidade exclusiva, na igualdade espiritual e no propósito de glorificar a Deus.

Que as palavras de Gênesis 2:24 ecoem como o padrão divino para todo casamento: "Portanto, deixará o homem o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à sua mulher, e serão uma só carne". E que cada marido e cada esposa possam viver de modo que seu lar seja um reflexo do amor de Cristo pela Igreja, para glória de Deus e bênção das famílias.

REFERÊNCIAS

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