A Cura Divina: Fundamentos Bíblicos, a Expiação de Cristo e a Prática na Igreja

A Cura Divina: Fundamentos Bíblicos, a Expiação de Cristo e a Prática na Igreja

Este artigo examina a doutrina da cura divina à luz das Escrituras Sagradas e da Declaração de Fé das Assembleias de Deus. São analisados a origem da enfermidade como consequência da queda, a cura divina como benefício da expiação de Cristo, o ministério de cura de Jesus e dos apóstolos, a unção com óleo segundo Tiago 5 e a relação entre fé, oração, medicina e vontade soberana de Deus.

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A cura divina é uma das doutrinas distintivas do pentecostalismo e um dos pilares da Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Desde os patriarcas até os apóstolos, a Bíblia registra que Deus cura os enfermos em resposta à oração da fé. O próprio nome de Deus é revelado como "Jeová-Rafá": "Eu sou o SENHOR que te sara" (Êxodo 15:26). No Novo Testamento, Jesus dedicou grande parte do Seu ministério terreno à cura de enfermos, demonstrando que a vinda do Reino de Deus traz restauração tanto espiritual quanto física.

Contudo, a doutrina da cura divina tem sido objeto de extremos: de um lado, o ceticismo que nega a atuação sobrenatural de Deus na atualidade; de outro, o triunfalismo que trata a cura como direito automático, desprezando a medicina e ignorando que Deus, em Sua soberania, pode permitir o sofrimento com propósitos maiores.

A Origem da Enfermidade e a Promessa de Cura

A enfermidade entrou no mundo como consequência do pecado original. Antes da queda, não havia doença, dor ou morte no Jardim do Éden. A Declaração de Fé afirma: "A origem da doença e da enfermidade está ligada à entrada do pecado na raça humana, pois no plano original da criação não havia lugar para a doença". O corpo humano, criado perfeito por Deus, tornou-se sujeito à corrupção e mortalidade após o pecado (Gênesis 3:16-19; Romanos 5:12).

No entanto, o Deus que criou o corpo é o mesmo que prometeu curá-lo. Em Êxodo 15:26, Deus declara ao Seu povo: "Se ouvires atento a voz do SENHOR teu Deus, e obrares o que é reto diante de seus olhos, e inclinares os teus ouvidos aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, nenhuma das enfermidades porei sobre ti, que pus sobre o Egito; porque eu sou o SENHOR que te sara." O Salmo 103:2-3 acrescenta: "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades." A cura divina é revelada como um dos benefícios da aliança de Deus com o Seu povo.

A Cura Divina e a Expiação de Cristo

O fundamento teológico mais sólido para a cura divina encontra-se na expiação de Cristo. Isaías 53 é o texto central: "Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si... pelas suas pisaduras fomos sarados" (Isaías 53:4-5). Mateus aplica diretamente esta profecia ao ministério de Jesus: "para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças" (Mateus 8:17).

A Declaração de Fé das Assembleias de Deus afirma que a cura divina "é um dos benefícios da obra expiatória e redentora de Cristo. Ele proveu na cruz tanto a salvação da alma quanto a cura do corpo". No entanto, diferentemente do perdão dos pecados — que é concedido a todo aquele que crê — a cura física, embora provida na expiação, não é recebida automaticamente por todos os crentes nesta vida. A plenitude da redenção do corpo ocorrerá na ressurreição, quando "o que é mortal se revista da imortalidade" (1 Coríntios 15:53-54). A cura divina é uma antecipação, na era presente, da redenção completa que se manifestará na eternidade.

O Ministério de Cura de Jesus e dos Apóstolos

Os Evangelhos registram que Jesus curou cegos, surdos, mudos, coxos, paralíticos, leprosos, hemorrágicos, lunáticos e até mesmo ressuscitou mortos. Pedro resumiu Seu ministério: "Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele" (Atos 10:38). A cura não era um evento isolado, mas parte central da proclamação do Reino.

Jesus não utilizou um único método: curou com um toque (Mateus 8:3), com uma palavra à distância (Mateus 8:8-13), com lodo e saliva (João 9:6-7) e até com a fé de terceiros (Mateus 8:5-13; Marcos 2:5). O que permaneceu constante foi a compaixão como motivação: "Jesus, movido de grande compaixão, estendeu a mão, e tocou-o, e disse-lhe: Quero, sê limpo!" (Marcos 1:41). A cura também era um sinal messiânico que autenticava Sua identidade divina: "à hora mesma, curou muitos de enfermidades, e de pragas, e de espíritos maus, e a muitos cegos deu a vista" (Lucas 7:21), cumprindo o que fora predito (Isaías 35:5-6).

Os apóstolos continuaram este ministério. Pedro curou o coxo à porta do templo, declarando: "Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda" (Atos 3:6). Paulo curou o coxo de Listra que tinha fé para ser curado (Atos 14:8-10). A cura era um dom do Espírito Santo operando na igreja primitiva (1 Coríntios 12:9), confirmando a Palavra com sinais (Marcos 16:17-18).

A Unção com Óleo e a Oração da Fé

Tiago 5:14-15 estabelece a prática normativa da igreja quanto à oração pelos enfermos: "Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados." A Declaração de Fé destaca que "é uma prática exercida nos moldes do Novo Testamento, sendo, portanto, efetuada somente pelos que exercem a liderança da igreja. Entre nós, é praticada por presbíteros, evangelistas e pastores".

É essencial enfatizar que a ênfase de Tiago não está no óleo em si, mas na "oração da fé". O óleo (azeite) é um símbolo do Espírito Santo, não um elemento mágico com propriedades curativas intrínsecas. A unção é um ato de fé e consagração do enfermo a Deus. A cura, quando ocorre, é realizada pelo Senhor, e "somente a Ele pertence a glória".

Cura Divina e Tratamento Médico

A Bíblia não opõe a cura divina ao tratamento médico. Pelo contrário, reconhece o valor da medicina. O profeta Isaías prescreveu "uma pasta de figos" como emplasto para a úlcera do rei Ezequias (Isaías 38:21). Jesus afirmou: "Não necessitam de médico os sãos, mas sim, os doentes" (Mateus 9:12), reconhecendo a legitimidade da prática médica. Paulo tinha Lucas, "o médico amado" (Colossenses 4:14), como companheiro de ministério, e aconselhou Timóteo a usar "um pouco de vinho" por causa de suas frequentes enfermidades estomacais (1 Timóteo 5:23), revelando uma abordagem prática e equilibrada para questões de saúde.

A Declaração de Fé é explícita: "A oração pelos enfermos não entra em conflito com o tratamento médico". Deus pode curar de forma sobrenatural e instantânea; Deus também pode curar através dos recursos da medicina; e Deus pode optar, em Seus insondáveis desígnios, por não curar nesta vida. O crente deve orar com fé, buscar tratamento médico com sabedoria e submeter-se à vontade soberana de Deus em todas as circunstâncias.

Por Que Alguns Não São Curados?

Esta é uma das perguntas mais difíceis e frequentes na experiência cristã. A Bíblia não oferece uma resposta única e simplista, mas fornece princípios que ajudam a compreender o mistério do sofrimento.

Primeiro, o exemplo de Paulo. O apóstolo tinha "um espinho na carne", que ele identificava como "mensageiro de Satanás" (2 Coríntios 12:7). Paulo orou três vezes ao Senhor para que fosse removido, e a resposta divina foi: "A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2 Coríntios 12:9). A recusa de Deus em curar Paulo tinha um propósito maior: mantê-lo humilde e dependente da graça divina. Este exemplo demonstra que a ausência de cura não é necessariamente falta de fé ou pecado na vida do crente.

Segundo, Timóteo sofria de "frequentes enfermidades" (1 Timóteo 5:23), e Paulo não o repreendeu por falta de fé, mas deu conselhos práticos. Trófimo ficou doente em Mileto e Paulo o deixou lá (2 Timóteo 4:20). Epafrodito adoeceu "até à morte" e Paulo reconheceu que Deus teve misericórdia dele (Filipenses 2:27). Estes exemplos provam que até mesmo obreiros fiéis experimentaram enfermidades.

Terceiro, a soberania de Deus. Assim como Ele curou a uns e não a outros no Antigo Testamento — curou Naamã, o siro (2 Reis 5), mas não curou todos os leprosos de Israel — Ele age segundo Seus propósitos. O crente deve orar com fé, confiar na bondade de Deus e submeter-se à Sua vontade, como Jesus no Getsêmani: "Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres" (Mateus 26:39). A Declaração de Fé afirma que a cura divina é um benefício da expiação, mas não ensina que seja automática ou universal nesta vida.

Conclusão

A cura divina é uma doutrina bíblica que integra a identidade doutrinária das Assembleias de Deus. A enfermidade tem sua origem na queda, mas Deus Se revela como Jeová-Rafá, o Senhor que sara. A expiação de Cristo proveu tanto o perdão dos pecados quanto a cura do corpo, constituindo o fundamento teológico da cura divina. O ministério de Jesus e dos apóstolos confirma a continuidade desta provisão, e a unção com óleo, conforme Tiago 5, permanece como prática normativa da igreja.

No entanto, a cura divina não pode ser tratada como fórmula mágica, direito exigível ou espetáculo. Deus pode curar sobrenaturalmente, usar a medicina como instrumento, ou permitir a enfermidade com propósitos que transcendem nossa compreensão imediata. O crente deve orar com fé, buscar tratamento médico com sabedoria, e confiar na soberania divina, sabendo que a cura definitiva — a redenção completa do corpo — será plenamente manifestada na ressurreição. Enquanto aguardamos aquele dia, oramos como a igreja primitiva: "concedendo que se façam sinais e prodígios pelo nome do teu santo Filho Jesus" (Atos 4:30).

Referências

  • BÍBLIA. Português. Almeida Corrigida Fiel. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, 2007.
  • BÍBLIA. A. T. Êxodo. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. Êxodo 15.
  • BÍBLIA. A. T. Salmos. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. Salmo 103.
  • BÍBLIA. A. T. Isaías. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. Isaías 35; 38; 53.
  • BÍBLIA. N. T. Mateus. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. Mateus 8; 9; 26.
  • BÍBLIA. N. T. Marcos. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. Marcos 1; 16.
  • BÍBLIA. N. T. Lucas. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. Lucas 7.
  • BÍBLIA. N. T. Atos. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. Atos 3; 4; 10; 14.
  • BÍBLIA. N. T. 1 Coríntios. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. 1 Coríntios 12; 15.
  • BÍBLIA. N. T. 2 Coríntios. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. 2 Coríntios 12.
  • BÍBLIA. N. T. Tiago. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. Tiago 5.
  • BÍBLIA. N. T. 1 Timóteo. In: BÍBLIA. Almeida Corrigida Fiel. 2007. 1 Timóteo 5.
  • DECLARAÇÃO DE FÉ das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. Capítulo XXI: Sobre a Cura Divina.
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