O Chamado Pastoral e a Ordenação de Mulheres ao Ministério
Este artigo examina, com base exclusiva nas Escrituras Sagradas, a controversa questão da ordenação de mulheres ao ofício pastoral. Apresenta de forma sistemática os argumentos contrários e favoráveis, uma síntese hermenêutica e uma conclusão avaliativa fundamentada na Bíblia.
Neste artigo
Poucas questões têm gerado tanta divergência no meio evangélico contemporâneo quanto à possibilidade de mulheres serem ordenadas ao ministério pastoral. Denominações históricas como as Assembleias de Deus, Igrejas Batistas tradicionais, Presbiterianas conservadoras e a Igreja Católica Romana reservam o ofício pastoral (ou sacerdotal) exclusivamente aos homens. Em contrapartida, denominações como Metodistas, Anglicanas, Luteranas de algumas vertentes, Batistas progressistas e muitas igrejas neopentecostais têm admitido e consagrado mulheres ao pastorado.
Ambos os lados reivindicam fundamentação bíblica para suas posições. O presente artigo propõe-se a apresentar, de forma sistemática e neutra, os argumentos escriturísticos de cada corrente, para em seguida oferecer uma conclusão avaliativa sobre qual das duas posições encontra maior respaldo no texto sagrado. A questão central que norteia esta pesquisa é: o que a Bíblia, em seu conjunto, ensina acerca da possibilidade de mulheres exercerem o ofício de pastoras, bispas ou presbíteras?
Para responder a esta pergunta, o artigo estrutura-se em três partes: a primeira apresenta o ofício pastoral conforme definido nas Escrituras; a segunda expõe os argumentos contrários ao pastorado feminino; a terceira expõe os argumentos favoráveis; e a conclusão oferece uma análise ponderada de ambas as posições.
2 O OFÍCIO PASTORAL NAS ESCRITURAS
Antes de examinar os argumentos propriamente ditos, é necessário estabelecer o que a Bíblia entende por ministério pastoral. No Antigo Testamento, a figura do pastor (hebraico roeh) é utilizada como metáfora para Deus (Salmo 23:1; Isaías 40:11), para os líderes civis de Israel (2 Samuel 5:2; Jeremias 23:1-4) e, de forma normativa, para aqueles que Deus constitui para apascentar o Seu povo (Ezequiel 34:23). Todavia, o ofício pastoral como função eclesiástica específica é uma instituição do Novo Testamento.
O apóstolo Paulo, em Efésios 4:11, declara que o Cristo ressurreto "deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores". O termo "pastores" (do grego poimenas) aparece aqui vinculado a "doutores" (didaskalous), indicando que o pastor é, essencialmente, um mestre da Palavra. Em Atos 20:28, Paulo exorta os presbíteros de Éfeso: "Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus". Os três termos — pastor (poimen), bispo (episkopos) e presbítero (presbyteros) — designam o mesmo ofício, variando a ênfase: pastor ressalta o cuidado e alimentação do rebanho; bispo enfatiza a supervisão e governo; e presbítero indica a maturidade e a autoridade decorrente dela.
As qualificações para este ofício são estabelecidas em duas passagens principais. Em 1 Timóteo 3:1-7, Paulo afirma: "Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia [...] Não neófito [...] que tenha bom testemunho dos que estão de fora".
Em Tito 1:5-9, a lista é semelhante: "Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis [...] Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante; retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes".
Nota-se que a função primordial do pastor-bispo-presbítero é dupla: (a) governar a igreja com autoridade espiritual e (b) ensinar a sã doutrina com fidelidade. O pastor é, portanto, aquele que exerce autoridade de governo e de ensino sobre a congregação, sendo constituído pelo Espírito Santo e reconhecido pela igreja.
3 ARGUMENTOS CONTRA O PASTORADO FEMININO
Esta seção apresenta os principais argumentos bíblicos daqueles que entendem que as Escrituras reservam o ofício pastoral exclusivamente aos homens.
3.1 Linguagem Masculina nas Qualificações Pastorais
O argumento mais direto e textual: as passagens que definem as qualificações para bispos e presbíteros empregam linguagem inequivocamente masculina. A exigência de que o bispo seja "marido de uma mulher" (1 Timóteo 3:2; Tito 1:6) pressupõe que o candidato seja do sexo masculino. Ainda que se possa argumentar que o foco da exigência seja a fidelidade conjugal (proibição de poligamia ou adultério), o texto não diz "fiel ao cônjuge", mas "marido de uma mulher". A exigência de que governe bem "a sua própria casa" e "seus filhos" (1 Timóteo 3:4-5), no contexto patriarcal do primeiro século e na teologia paulina, aponta para o homem como cabeça do lar (Efésios 5:23).
O argumento de que essa exigência excluiria também homens solteiros é refutado pelo fato de que a exigência é de fidelidade conjugal para aqueles que são casados (e não de estado civil obrigatório), mas pressupõe que, se casado, o candidato seja homem — pois marido de uma mulher não pode ser biologicamente uma mulher.
3.2 A Proibição de Paulo em 1 Timóteo 2:11-15
Esta passagem é considerada o texto-chave da posição contrária à ordenação feminina. Paulo afirma com clareza: "A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio" (1 Timóteo 2:11-12). O argumento baseia-se em três pilares:
Primeiro, o escopo da proibição é amplo: Paulo não se refere a um caso particular, mas estabelece uma norma para a igreja ("quero, pois, que os homens orem em todo o lugar" — 1 Timóteo 2:8 — e, simetricamente, que as mulheres aprendam em silêncio). A proibição abrange duas atividades que definem o ofício pastoral: ensinar (didaskein) e exercer autoridade (authentein).
Segundo, a fundamentação não é cultural, mas criacional. Paulo não apela aos costumes de Éfeso, mas à ordem da criação: "Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão" (1 Timóteo 2:13-14). Se a base da proibição é a ordem criacional, então trata-se de um princípio transcultural, não limitado a uma situação histórica específica.
Terceiro, ainda que o verbo authentein tenha sido usado apenas aqui no Novo Testamento e comporte a conotação de "dominar" ou "usurpar", Paulo não está proibindo apenas um abuso, mas o próprio exercício de autoridade de ensino da mulher sobre o homem na igreja. A partícula negativa ouk ("não") seguida do infinitivo presente indica uma proibição permanente, não circunstancial.
3.3 A Instrução de Paulo em 1 Coríntios 14:34-35
Nesta passagem, Paulo é ainda mais incisivo: "As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja" (1 Coríntios 14:34-35).
Para os defensores desta posição, Paulo apela não apenas ao costume, mas à "lei" (nomos), termo que nas epístolas paulinas geralmente remete à Torah, indicando que a submissão da mulher não é inovação apostólica, mas continuidade do princípio veterotestamentário de ordem na criação e na adoração pública. A igreja de Corinto não é a única destinatária — Paulo afirma que esta é a prática "em todas as igrejas dos santos" (1 Coríntios 14:33).
3.4 Ausência de Mulheres no Ofício Pastoral do Novo Testamento
Não há um único exemplo no Novo Testamento de mulher exercendo o ofício de pastora, bispa ou presbítera. Embora Febe seja chamada de diakonos (Romanos 16:1), o termo é utilizado em seu sentido amplo de "serva" ou, quando muito, designando o diaconato — um ofício distinto do pastorado. Priscila, com seu marido Áquila, ensinou Apolo em contexto privado (Atos 18:26), o que é qualitativamente diferente do exercício do ofício pastoral público com autoridade sobre a igreja. Júnias (Romanos 16:7) é mencionada entre os apóstolos, mas o texto não afirma que ela fosse apóstola — a expressão pode significar "notável aos olhos dos apóstolos" ou "notável entre os apóstolos" no sentido missionário amplo, não no sentido dos Doze.
Todos os presbíteros constituídos por Paulo e seus cooperadores foram homens (Atos 14:23; Tito 1:5). Jesus escolheu doze apóstolos, todos homens. A prática apostólica é uniforme e consistente nesse ponto, o que constitui um argumento de peso para aqueles que entendem que o ofício pastoral foi estabelecido por Cristo e pelos apóstolos como função masculina.
3.5 Princípio da Liderança Masculina na Criação
Para além dos textos específicos sobre a igreja, há um princípio teológico mais amplo que perpassa as Escrituras: a liderança masculina como parte da ordem criacional. Paulo fundamenta a submissão da mulher na igreja na ordem da criação (1 Timóteo 2:13) e não na Queda ou na cultura. Em 1 Coríntios 11:3, ele estabelece uma hierarquia funcional: "Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo". Esta estrutura não implica inferioridade ontológica, mas distinção funcional na família e na igreja.
Os defensores desta posição argumentam que Deus estabeleceu, desde a criação, papéis distintos e complementares para homem e mulher. O homem foi criado primeiro e recebeu a responsabilidade de liderança (Gênesis 2:15-18). A mulher foi criada como auxiliadora idônea (Gênesis 2:18) — termo hebraico ezer kenegdo que não denota inferioridade, mas complementaridade funcional. A Queda não criou esses papéis; antes, distorceu-os (Gênesis 3:16), e a redenção em Cristo os restaura ao seu propósito original, não os abole. Portanto, o ofício pastoral, que envolve autoridade de governo e de ensino sobre a igreja, alinha-se com o papel de liderança designado por Deus ao homem.
4 ARGUMENTOS A FAVOR DO PASTORADO FEMININO
Esta seção apresenta os argumentos bíblicos daqueles que defendem a legitimidade da ordenação de mulheres ao ofício pastoral.
4.1 Deus Chamou e Usou Mulheres em Liderança Espiritual
O Antigo Testamento registra casos incontestáveis de mulheres exercendo autoridade espiritual sobre o povo de Deus. Débora foi profetisa e juíza de Israel: "E Débora, mulher profetisa, mulher de Lapidote, julgava a Israel naquele tempo. Ela assentava-se debaixo das palmeiras de Débora [...] e os filhos de Israel subiam a ela a juízo" (Juízes 4:4-5). Ela não apenas julgava, mas comandou a estratégia militar contra Sísera e autodenominou-se "mãe em Israel" (Juízes 5:7). O texto bíblico jamais desabona sua liderança.
Hulda, a profetisa, foi consultada pelo sumo sacerdote Hilquias e pelos oficiais do rei Josias (2 Reis 22:14-20). Ela proferiu palavra profética com autoridade divina sobre o rei e o sacerdócio de Israel. Miriã é chamada "a profetisa" (Êxodo 15:20) e Deus a menciona como líder ao lado de Moisés e Arão (Miqueias 6:4). Se Deus constituiu mulheres em posições de autoridade espiritual sobre todo o Israel, argumenta-se, Ele não tem objeção de princípio quanto à liderança espiritual feminina.
4.2 Mulheres Exerceram Funções Ministeriais no Novo Testamento
Febe é apresentada como diakonos da igreja de Cencreia (Romanos 16:1). O termo grego é o mesmo utilizado para designar o ofício de diácono (Filipenses 1:1; 1 Timóteo 3:8-13). Paulo a recomenda com autoridade para ser recebida pela igreja de Roma e a descreve como "protetora" (prostatis) de muitos — termo que denota liderança e patrocínio. Se uma mulher pode exercer o diaconato — um ofício reconhecido da igreja —, não haveria razão intrínseca para excluí-la do presbiterato.
Priscila, juntamente com Áquila, "declarou mais precisamente o caminho de Deus" a Apolo, que era "poderoso nas Escrituras" (Atos 18:24-26). O fato de Priscila ser mencionada antes do marido em cinco das seis ocorrências do casal sugere sua proeminência no ministério de ensino. Júnias (Romanos 16:7) é descrita como alguém que "se distinguiu entre os apóstolos", expressão que a maioria dos exegetas contemporâneos interpreta como indicando que Júnias era uma mulher reconhecida como apóstola (no sentido amplo de missionária enviada).
Evódia e Síntique "trabalharam comigo (Paulo) no evangelho" (Filipenses 4:2-3). O verbo synathleo significa "lutar lado a lado", indicando parceria ministerial ativa. Paulo reconheceu que mulheres oravam e profetizavam publicamente na igreja (1 Coríntios 11:5), atos que envolvem fala pública com autoridade espiritual.
4.3 O Contexto Cultural das Passagens Restritivas
Os defensores da ordenação feminina argumentam que as passagens de 1 Timóteo 2 e 1 Coríntios 14 devem ser compreendidas à luz do contexto histórico-cultural em que foram escritas. Em Éfeso, havia um problema específico com falsos mestres que influenciavam mulheres (1 Timóteo 1:3-7; 5:13-15; 2 Timóteo 3:6-7). Paulo estaria restringindo temporariamente mulheres despreparadas e influenciadas por heresias, não estabelecendo uma proibição permanente.
Em Corinto, as mulheres geralmente não recebiam instrução formal e interrompiam o culto com perguntas. A ordem de "interroguem em casa a seus próprios maridos" (1 Coríntios 14:35) sugere que o problema era de disrupção, não de participação ministerial legítima. Prova disso é que, na mesma epístola, Paulo permite que mulheres orem e profetizem publicamente (1 Coríntios 11:5), o que seria contraditório se a proibição de 1 Coríntios 14 fosse absoluta.
Quanto a 1 Timóteo 2:11-12, o verbo authentein (traduzido como "usar de autoridade") é raro no grego e carrega frequentemente a conotação negativa de "dominar", "usurpar autoridade" ou até "assassinar". Paulo estaria proibindo um comportamento abusivo ou autoritário, não o exercício legítimo de autoridade pastoral por mulheres capacitadas e reconhecidas. A tradução mais precisa seria: "Não permito que a mulher ensine de forma a dominar o homem".
4.4 Princípio da Igualdade em Cristo (Gálatas 3:28)
O argumento teológico mais abrangente a favor do pastorado feminino é o princípio da nova criação em Cristo: "Não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gálatas 3:28). Embora o contexto imediato seja a justificação pela fé, os defensores argumentam que Paulo está derrubando as barreiras que separavam as pessoas no mundo antigo — raça, classe social e gênero — e que essas barreiras não devem ser reconstruídas na igreja.
Se a igreja não pode excluir alguém do ministério com base em etnia (judeu/grego) ou classe social (servo/livre), argumentam, também não pode excluir com base em gênero (macho/fêmea). A inauguração da nova aliança em Cristo restaura a igualdade original da criação, onde homem e mulher foram igualmente criados à imagem de Deus (Gênesis 1:27). A profecia de Joel, cumprida no Pentecostes, confirma que o Espírito Santo capacita igualmente "filhos e filhas" para o ministério profético (Joel 2:28-29; Atos 2:17-18). Se o Espírito concede dons pastorais a mulheres, a igreja não deveria impedir o exercício desses dons.
4.5 Distinção entre Ofício e Função
Alguns teólogos argumentam que o Novo Testamento não estabelece uma estrutura eclesiástica rígida e que a distinção entre os ofícios (bispo, presbítero, diácono) desenvolveu-se gradualmente. As cartas pastorais refletem um estágio de organização que não é necessariamente normativo para todas as épocas e culturas. O essencial não é a forma do ofício, mas a função pastoral de apascentar, ensinar e cuidar — funções que mulheres podem desempenhar e, de fato, desempenharam.
Ademais, a igreja primitiva contava com mulheres que exerciam liderança em igrejas domésticas (como a igreja na casa de Priscila e Áquila — Romanos 16:5; 1 Coríntios 16:19), o que incluía, muito provavelmente, funções de ensino e supervisão pastoral sobre a comunidade que se reunia em seus lares.
5 SÍNTESE HERMENÊUTICA
Diante do exposto, percebe-se que a questão da ordenação feminina ao ministério pastoral não admite resposta simplista. As Escrituras apresentam tanto passagens que parecem restringir a participação feminina quanto exemplos e princípios que a fundamentam. A resolução dessa tensão depende, em grande medida, do método hermenêutico adotado.
Aqueles que adotam uma hermenêutica mais literal e entendem as passagens restritivas como princípios transculturais concluirão que a ordenação feminina não encontra respaldo bíblico. Já aqueles que contextualizam essas passagens e valorizam os exemplos de Débora, Priscila, Febe e outros concluirão que as Escrituras não proíbem categoricamente a atuação de mulheres no ministério pastoral.
Ambas as posições encontram defensores sérios e piedosos ao longo da história da igreja. O que não se pode negar, à luz dos dados bíblicos, é que Deus chamou e usou mulheres de forma sobrenatural para exercerem liderança espiritual sobre Seu povo, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Resta à igreja contemporânea orar, estudar as Escrituras com diligência e buscar a direção do Espírito Santo para aplicar esses princípios à realidade eclesiástica atual, sem desprezar a tradição nem ignorar a liberdade do Espírito em capacitar a quem Ele quer para a Sua obra.
6 CONCLUSÃO
Após a exposição sistemática de ambos os conjuntos de argumentos, cabe oferecer ao leitor uma análise avaliativa sobre qual das duas posições — contrária ou favorável ao pastorado feminino — encontra maior fundamentação nas Escrituras Sagradas.
Os argumentos favoráveis ao pastorado feminino possuem mérito real e não podem ser descartados levianamente. É fato bíblico que Deus chamou mulheres para posições de liderança espiritual (Débora, Hulda), que mulheres profetizaram publicamente (Miriã, as filhas de Filipe — Atos 21:9), que Paulo contou com colaboradoras ministeriais (Priscila, Febe, Evódia, Síntique) e que o Espírito Santo foi derramado igualmente sobre homens e mulheres (Joel 2:28-29; Atos 2:17-18). O princípio da igualdade ontológica entre homem e mulher em Cristo (Gálatas 3:28) é um pilar da teologia paulina que impede qualquer menosprezo à dignidade ou aos dons das mulheres na igreja.
Todavia, quando se examina especificamente o ofício de pastor-bispo-presbítero — e não a participação feminina no ministério em sentido amplo —, os argumentos contrários à ordenação feminina apresentam fundamentação escriturística mais sólida, pelas seguintes razões:
Primeira: as qualificações para o episcopado/presbiterato (1 Timóteo 3:1-7; Tito 1:5-9) empregam linguagem masculina consistente. A expressão "marido de uma mulher" não é acidental; aparece em ambas as listas e, no contexto patriarcal do primeiro século e da teologia paulina, pressupõe que o candidato ao ofício pastoral seja homem. Interpretar essa exigência como mera referência à fidelidade conjugal ignora a forma gramatical masculina que perpassa todo o texto.
Segunda: 1 Timóteo 2:11-12 contém uma proibição apostólica direta, cuja fundamentação é criacional, não cultural. Paulo não diz "em Éfeso, não permito", mas "não permito", e fundamenta essa proibição na ordem da criação (Adão formado primeiro — versículo 13) e na Queda (Eva enganada — versículo 14). Esses argumentos transcendem qualquer contexto local e apontam para um princípio permanente de distinção funcional entre homem e mulher na igreja. Ainda que se discuta o significado preciso de authentein, a proibição conjunta de "ensinar" e "exercer autoridade" cobre exatamente as funções distintivas do ofício pastoral.
Terceira: a prática apostólica é consistente em não constituir mulheres como pastoras, bispas ou presbíteras. Não há um único exemplo inequívoco no Novo Testamento. Os casos de Febe (diaconisa), Priscila (ensino privado em conjunto com o marido) e Júnias (provavelmente missionária) demonstram participação feminina no ministério, mas não no ofício pastoral de governo e ensino autoritativo sobre a congregação reunida. Jesus escolheu doze homens como apóstolos, e Paulo constituiu presbíteros (homens) em cada igreja (Atos 14:23). O argumento do silêncio, neste caso, é significativo, pois se a ordenação feminina fosse uma prática apostólica, haveria registro análogo ao que há para os homens.
Quarta: 1 Coríntios 14:34-35, embora deva ser interpretado em harmonia com 1 Coríntios 11:5, estabelece que há um limite para a participação vocal feminina na assembleia. A permissão para "orar e profetizar" (1 Coríntios 11:5) não equivale à permissão para o exercício regular e autoritativo do ofício pastoral. A igreja primitiva distinguia entre manifestações carismáticas ocasionais (que Paulo regula em 1 Coríntios 11-14) e ofícios permanentes de governo e ensino (que Paulo regula em 1 Timóteo 3 e Tito 1).
Quinta: ainda que os exemplos veterotestamentários de Débora e Hulda demonstrem que Deus pode usar mulheres em posições de liderança, é necessário distinguir entre o que Deus pode fazer soberanamente (exceções providenciais) e o que Ele estabeleceu como norma para a igreja (ofícios instituídos). Débora foi levantada em um período de apostasia e escassez de liderança masculina fiel (Juízes 4:1; cf. Juízes 5:7-8). O próprio cântico de Débora reconhece a anormalidade da situação. Usar exceções providenciais do Antigo Testamento para estabelecer normas eclesiásticas neotestamentárias é hermeneuticamente problemático.
Em conclusão, reconhece-se que ambos os lados do debate apresentam argumentos bíblicos sérios, e que cristãos piedosos e estudiosos têm chegado a conclusões diferentes. Contudo, quando o foco se restringe ao ofício pastoral em sentido estrito — bispo, presbítero, pastor com autoridade de governo e ensino sobre a igreja —, as evidências escriturísticas pesam de forma mais consistente em favor da posição que reserva esse ofício aos homens. Isso não diminui a dignidade, os dons ou a importância das mulheres na igreja, que são chamadas a exercer uma ampla gama de ministérios (diaconato, ensino de mulheres e crianças, profecia ordenada, evangelismo, missões, aconselhamento, hospitalidade), todos essenciais para a edificação do corpo de Cristo.
Como afirmou Paulo aos Coríntios, o propósito de toda regulamentação eclesiástica é que "tudo se faça decentemente e com ordem" (1 Coríntios 14:40), para a glória de Deus e a edificação da Sua igreja.
A decisão final cabe a cada comunidade de fé, em submissão à Palavra, em dependência do Espírito e em amor fraternal para com aqueles que, de boa consciência, chegam a conclusões diferentes sobre esta complexa questão.
REFERÊNCIAS
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