A Validade do Dízimo na Igreja Contemporânea
Este artigo examina a validade e o percentual do dízimo na igreja contemporânea com base exclusiva nas Escrituras Sagradas. A pesquisa percorre o desenvolvimento histórico-bíblico do dízimo desde sua prática antes da Lei até sua aplicação nos dias atuais.
O dizimo e um dos temas mais debatidos no meio evangelico contemporaneo. De um lado, ha aqueles que defendem sua plena vigencia como mandamento biblico obrigatorio, apontando para passagens como Malaquias 3:8-10 e Mateus 23:23. De outro, ha os que argumentam que o dizimo e uma instituicao da Lei Mosaica, superada pela nova alianca, que preconiza ofertas voluntarias proporcionais (2 Corintios 9:7). Entre esses polos, existe um amplo espectro de posicoes intermediarias.
Este artigo propoe-se a examinar, com base exclusiva nas Escrituras, tres questoes fundamentais: (a) o que a Biblia ensina sobre o dizimo no Antigo Testamento; (b) como o Novo Testamento aborda o tema; e (c) como esse principio se aplica a igreja nos dias atuais, incluindo a questao do percentual e as consequencias para quem contribui e para quem nao contribui com a obra de Deus.
2 O DIZIMO NO ANTIGO TESTAMENTO
O Antigo Testamento apresenta o dizimo em tres fases distintas: antes da Lei, durante a Lei e no periodo profetico pos-exilico. Cada uma delas oferece elementos importantes para a compreensao do tema.
2.1 O Dizimo Antes da Lei: Abraao e Jaco
A primeira mencao biblica ao dizimo ocorre em Genesis 14, quando Abraao retorna da vitoria sobre os reis que haviam saqueado Sodoma e levado Ló cativo. O texto relata: "E Melquisedeque, rei de Salem, trouxe pao e vinho; e era este sacerdote do Deus Altissimo. E abencoou-o [...] E Abrao deu-lhe o dizimo de tudo" (Genesis 14:18-20). Esse evento e significativo por varias razoes: ocorre antes da instituicao da Lei Mosaica; o destinatario nao e um levita, mas um sacerdote misterioso, figura de Cristo (Hebreus 7); e Abraao entrega voluntariamente o dizimo como ato de adoracao e reconhecimento da soberania de Deus sobre os bens materiais.
A segunda mencao pre-lei encontra-se em Genesis 28:20-22, onde Jaco, apos o sonho da escada que tocava o ceu, faz um voto: "Se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem [...] o Senhor me sera por Deus; e esta pedra que tenho posto por coluna sera casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dizimo". Novamente, o dizimo aparece como expressao voluntaria de devocao, nao como mandamento legal. E uma resposta de gratidao a Deus por Sua protecao e provisao.
Esses dois exemplos patriarcais demonstram que o principio de devolver a decima parte a Deus como reconhecimento de Sua soberania precede e transcende o sistema levitico, enraizando-se na fe dos patriarcas.
2.2 O Dizimo na Lei Mosaica: Natureza e Propositos
Com a instituicao da Lei, o dizimo passou de pratica voluntaria para mandamento obrigatorio, integrando o sistema cultual e social de Israel. O Antigo Testamento estabelece, na verdade, nao um, mas pelo menos tres dizimos distintos, que juntos somavam mais de 10% da renda anual do israelita.
O primeiro dizimo era destinado ao sustento da tribo de Levi, responsavel pelo servico no Tabernaculo e, posteriormente, no Templo. Numeros 18:21 declara: "E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dizimos em Israel por heranca, pelo ministerio que executam". Os levitas, por sua vez, deveriam entregar o dizimo dos dizimos aos sacerdotes (Numeros 18:26-28). Esse sistema vigorava porque Levi nao recebera heranca territorial como as demais tribos, sendo o proprio Senhor a sua heranca.
O segundo dizimo e descrito em Deuteronomio 14:22-27: "Certamente daras os dizimos de todo o fruto da tua semente, que cada ano se recolher do campo. E, perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comeras os dizimos do teu grao, do teu mosto e do teu azeite". Este dizimo era consumido pelo proprio ofertante e sua familia em uma refeicao festiva perante o Senhor, no local designado por Ele (o Templo em Jerusalem). O proposito era pedagogico: "para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus todos os dias". Nao se tratava de mero imposto, mas de uma experiencia de adoracao e comunhao com Deus.
O terceiro dizimo ocorria a cada tres anos. Deuteronomio 14:28-29 ordena: "Ao fim de tres anos tiraras todos os dizimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolheras dentro das tuas portas; entao vira o levita, e o estrangeiro, e o orfao, e a viuva [...] e comerao, e fartar-se-ao; para que o Senhor teu Deus te abencoe em toda a obra que as tuas maos fizerem". Este terceiro dizimo tinha finalidade social: amparar os necessitados da comunidade.
Soma-se a esses dizimos a determinacao de Levítico 27:30-32: "Tambem todas as dizimas do campo [...] sao do Senhor; santas sao ao Senhor". O dizimo era considerado santo, consagrado a Deus. Nao era oferta opcional, mas devolucao obrigatoria de algo que ja pertencia ao Senhor. O texto acrescenta que, se alguem quisesse resgatar parte do dizimo, deveria acrescentar um quinto (20%) sobre o valor -- penalidade que reforca a seriedade da obrigacao.
2.3 Malaquias 3:8-12: A Repreensao Profetica e a Promessa de Bencao
O texto mais contundente do Antigo Testamento sobre o dizimo encontra-se em Malaquias 3:8-12, escrito no periodo pos-exilico, quando o povo negligenciara a manutencao do Templo e do culto. O profeta transmite uma dura repreensao divina: "Roubara o homem a Deus? Todavia vos me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dizimos e nas ofertas. Com maldicao sois amaldicoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nacao" (Malaquias 3:8-9).
Dois aspectos merecem destaque. Primeiro, Deus classifica a retencao do dizimo como roubo -- nao mera negligencia ou descuido, mas apropriacao indebita do que Lhe pertence. Segundo, a consequencia e a maldicao sobre a nacao inteira, demonstrando que a infidelidade nos dizimos tem efeitos coletivos, nao apenas individuais.
Imediatamente apos a reprimenda, porem, vem uma das promessas mais extraordinarias da Biblia: "Trazei todos os dizimos a casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o Senhor dos Exercitos, se eu nao vos abrir as janelas do ceu, e nao derramar sobre vos uma bencao tal ate que nao haja lugar suficiente para a recolherdes. E por causa de vos repreenderei o devorador, e ele nao destruira os frutos da vossa terra; e a vossa vide no campo nao sera esteril" (Malaquias 3:10-11).
Malaquias e a unica passagem biblica em que Deus explicitamente convida o homem a "prova-Lo" quanto ao dizimo. A promessa abrange tres areas: provisao abundante ("janelas do ceu"), protecao contra perdas ("repreenderei o devorador") e produtividade do trabalho ("a vide nao sera esteril"). O versiculo 12 acrescenta uma bencao reputacional: "E todas as nacoes vos chamarao bem-aventurados".
2.4 Proverbios 3:9-10: O Principio das Primicias
Embora nao trate especificamente do dizimo, Proverbios 3:9-10 estabelece um principio fundamental: "Honra ao Senhor com os teus bens, e com a primeira parte de todos os teus ganhos; e se encherão os teus celeiros, e transbordarao de vinho os teus lagares". A enfase recai sobre a prioridade de Deus na administracao financeira -- dar a "primeira parte", nao as sobras, como ato de honra e confianca. Este principio ecoa por todo o Antigo Testamento e permanece relevante para a reflexao sobre o sustento da obra de Deus.
3 O DIZIMO NO NOVO TESTAMENTO
A abordagem neotestamentaria do dizimo difere significativamente da veterotestamentaria. Enquanto o Antigo Testamento dedica capitulos inteiros a regulamentacao detalhada dos dizimos, o Novo Testamento menciona o termo poucas vezes e nunca ordena explicitamente aos cristaos que dizimem. Contudo, estabelece principios que orientam a contribuicao financeira na nova alianca.
3.1 A Mencao de Jesus ao Dizimo (Mateus 23:23; Lucas 11:42)
A unica mencao direta de Jesus ao dizimo ocorre em Sua critica aos escribas e fariseus: "Ai de vos, escribas e fariseus, hipocritas! pois que dizimais a hortela, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juizo, a misericordia e a fe; deveis, porem, fazer estas coisas, e nao omitir aquelas" (Mateus 23:23).
Este versiculo e crucial para o debate. Por um lado, Jesus claramente valida a pratica do dizimo ao dizer "deveis fazer estas coisas" -- referindo-se ao ato de dizimar. Ele nao abole o dizimo. Por outro lado, Ele relativiza sua importancia diante dos valores maiores da Lei: justica, misericordia e fe. O dizimo e valido, mas insuficiente se desacompanhado de um coracao reto. Jesus esta falando a judeus que ainda viviam sob a economia da Lei, antes da instituicao da nova alianca em Sua morte e ressurreicao. O texto paralelo de Lucas 11:42 utiliza linguagem semelhante, reforcando o ensino.
3.2 Hebreus 7: O Dizimo e o Sacerdocio de Cristo
O escritor aos Hebreus retoma o episodio de Abraao e Melquisedeque para demonstrar a superioridade do sacerdocio de Cristo sobre o levitico. O argumento e o seguinte: Levi, que recebia dizimos do povo, pagou dizimos a Melquisedeque por meio de Abraao, pois "ainda ele estava nos lombos de seu pai quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro" (Hebreus 7:9-10). Logo, o sacerdocio de Melquisedeque -- do qual Cristo e o cumprimento -- e superior ao de Levi.
O ponto teologico de Hebreus nao e ensinar sobre o dizimo em si, mas demonstrar a mudanca de sacerdocio e, consequentemente, da lei: "mudando-se o sacerdocio, necessariamente se faz tambem mudanca da lei" (Hebreus 7:12). Esse versiculo e utilizado por aqueles que defendem a nao obrigatoriedade do dizimo na nova alianca, pois se o sistema levítico -- que incluia o dizimo como meio de sustento sacerdotal -- foi substituído pelo sacerdocio de Cristo, a legislacao sobre o dizimo tambem teria sido cumprida e superada.
3.3 O Sustento Ministerial no Novo Testamento (1 Corintios 9)
Embora nao use o termo "dizimo", Paulo defende vigorosamente o direito daqueles que pregam o evangelho de serem sustentados pela igreja. Em 1 Corintios 9:13-14, ele argumenta: "Nao sabeis vos que os que administram o que e sagrado comem do que e do templo? E que os de continuo estao junto ao altar, participam do altar? Assim ordenou tambem o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho".
O principio permanece: a obra de Deus deve ser sustentada pelo povo de Deus. Paulo cita, inclusive, a Lei de Moises como analogia ("Nao ataras a boca ao boi que debulha" -- 1 Corintios 9:9; Deuteronomio 25:4) para demonstrar que o obreiro e digno do seu salario. Contudo, Paulo faz questao de abrir mao desse direito em seu proprio ministerio, para nao criar obstaculos ao evangelho (1 Corintios 9:12, 15-18), o que demonstra que, na nova alianca, o sustento ministerial e um direito, nao uma imposicao legal.
3.4 O Principio Neotestamentario da Contribuicao Voluntaria e Generosa
O Novo Testamento nao fixa um percentual obrigatorio para as contribuicoes. Em vez disso, estabelece principios que devem governar a mordomia crista:
Primeiro, a contribuicao deve ser proporcional a renda. Paulo instrui os corintios: "No primeiro dia da semana cada um de vos ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade" (1 Corintios 16:2). O texto nao diz "deem 10%", mas "conforme a sua prosperidade" -- o que tanto pode significar um percentual fixo como um valor variavel conforme a condicao financeira de cada um.
Segundo, a contribuicao deve ser voluntaria e alegre, nao por constrangimento. O texto mais explicito e 2 Corintios 9:6-7: "E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco tambem ceifara; e o que semeia em abundancia, em abundancia ceifara. Cada um contribua segundo propos no seu coracao; nao com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que da com alegria". O principio da semeadura e da colheita permanece vigente, mas a motivacao deve ser a alegria, nao o medo ou a coacao.
Terceiro, a contribuicao deve ser sistematica e planejada. A expressao "no primeiro dia da semana" (1 Corintios 16:2) sugere regularidade, e "cada um de vos ponha de parte" indica intencionalidade previa. A igreja primitiva nao dependia de apelos emocionais ou improvisos, mas de planejamento na administracao das contribuicoes.
3.5 O Exemplo da Igreja Primitiva (Atos 2 e 4)
Nos primeiros capitulos de Atos, a igreja de Jerusalem praticou uma forma ainda mais radical de contribuicao. O texto relata que "todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade" (Atos 2:44-45). Em Atos 4:34-35, acrescenta-se: "Nao havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuiam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preco do que fora vendido, e o depositavam aos pes dos apostolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha".
Este modelo excede em muito os 10% do dizimo levítico -- os primeiros cristaos entregavam tudo o que possuiam, e nao apenas uma fracao. No entanto, e importante observar que essa pratica nao e apresentada como mandamento universal, mas como manifestacao espontanea do amor fraternal impulsionado pelo Espirito Santo. Em nenhum outro lugar do Novo Testamento essa pratica e instituida como norma para todas as igrejas.
4 CONSEQUENCIAS BIBLICAS DA FIDELIDADE E DA INFIDELIDADE NA CONTRIBUICAO
As Escrituras associam tanto bencaos quanto maldicoes a forma como o povo de Deus administra seus bens em relacao ao Senhor. E necessario, porem, distinguir entre principios espirituais permanentes e promessas especificas da antiga alianca.
4.1 As Consequencias para Quem Contribui com Fidelidade
A Biblia apresenta pelo menos quatro consequencias associadas a fidelidade na contribuicao. A primeira e a bencao material, prometida de forma clara em Malaquias 3:10 ("abrir as janelas do ceu") e Proverbios 3:10 ("se encherão os teus celeiros"). No entanto, deve-se evitar a chamada "teologia da prosperidade", que trata essas promessas como formulas automaticas de enriquecimento. As bencaos materiais na Biblia sao consequencia da obediência dentro de uma alianca, nao mecanismo de barganha com Deus.
A segunda e a protecao contra o devorador. Malaquias 3:11 declara: "por causa de vos repreenderei o devorador". No contexto agricola de Israel, o "devorador" era pragas como gafanhotos que destruiam as colheitas. No contexto contemporaneo, o principio aponta para a protecao divina sobre o patrimonio e o fruto do trabalho daqueles que honram a Deus com seus bens.
A terceira e a colheita proporcional. 2 Corintios 9:6 estabelece que a semeadura determina a colheita: "o que semeia pouco, pouco tambem ceifara; e o que semeia em abundancia, em abundancia ceifara". Ainda que Paulo estivesse tratando especificamente de uma coleta para os santos pobres de Jerusalem, o principio agricola que ele evoca transcende o contexto imediato.
A quarta e a alegria e o contentamento. O doador generoso experimenta a bem-aventuranca de que "mais bem-aventurada coisa e dar do que receber" (Atos 20:35), e a satisfacao de contribuir para o avanco do Reino de Deus.
4.2 As Consequencias para Quem Nao Contribui ou o Faz sem o Coracao Correto
Malaquias 3:9 e explicito: "Com maldicao sois amaldicoados, porque a mim me roubais". A retencao do que pertence a Deus atrai disciplina divina. Ageu 1:6,9 complementa: "Semeais muito, e recolheis pouco; comeis, porem nao vos fartais; bebeis, porem nao vos saciais; vestis-vos, porem ninguem se aquece; e o que recebe salario, recebe-o num saco furado". O profeta atribui a escassez a negligencia com a Casa de Deus.
No Novo Testamento, a enfase recai menos sobre maldicoes especificas e mais sobre o principio espiritual de que a avareza e a mesquinhez endurecem o coracao e afastam o crente da dependencia de Deus. Jesus advertiu: "Nao podeis servir a Deus e a Mamom" (Mateus 6:24). O apego excessivo ao dinheiro revela idolatria, e a recusa em contribuir para a obra de Deus demonstra falta de fe na provisao divina e ingratidao pelo que Dele se recebeu.
Ha tambem uma consequencia comunitaria: quando o povo de Deus deixa de contribuir, a obra definha. Em Malaquias, a falta de dizimos resultou em falta de "mantimento na minha casa" (Malaquias 3:10) -- os levitas abandonaram o servico do Templo para buscar sustento proprio (Neemias 13:10). Na igreja contemporanea, a infidelidade financeira dos membros pode comprometer a manutencao do templo, o sustento pastoral e as acoes missionarias e sociais.
5 O DIZIMO NA IGREJA CONTEMPORANEA: VALIDADE E PERCENTUAL
5.1 A Questao do Percentual
Uma das questoes mais praticas diz respeito ao percentual. O Antigo Testamento estabelecia o dizimo (10%) como base, mas, como visto, na verdade havia mais de um dizimo, totalizando aproximadamente 23% da renda anual. O Novo Testamento, contudo, nao fixa nenhum percentual numerico. As expressoes neotestamentarias sao qualitativas e proporcionais, nao quantitativas: "conforme a sua prosperidade" (1 Corintios 16:2), "segundo propos no seu coracao" (2 Corintios 9:7), "o que semeia em abundancia" (2 Corintios 9:6).
Diante disso, surgem tres posicoes principais entre os cristaos: (a) o dizimo de 10% permanece obrigatorio, pois e anterior a Lei e confirmado por Jesus; (b) o dizimo de 10% e uma referencia minima e orientadora, mas cada crente deve dar conforme sua condicao e com alegria; e (c) o dizimo de 10% foi abolido com a Lei, e o crente da nova alianca deve apenas dar ofertas voluntarias conforme a direcao do Espirito.
As tres posicoes encontram defensores entre estudiosos serios da Biblia. Nao obstante, e possivel identificar um consenso no Novo Testamento em torno dos seguintes parametros: generosidade ("em abundancia"), proporcionalidade ("conforme a sua prosperidade"), voluntariedade ("segundo propos no coracao"), alegria ("Deus ama ao que da com alegria") e regularidade ("no primeiro dia da semana"). Sob nenhuma hipotese o Novo Testamento autoriza a avareza ou a negligencia com a obra de Deus.
5.2 Validade do Principio para os Dias Atuais
Ainda que haja debate sobre a obrigatoriedade do percentual exato de 10%, ha amplo consenso de que o principio de contribuir para a obra de Deus permanece plenamente vigente. As razoes sao biblicas e praticas:
Primeiro, a igreja possui despesas reais -- manutencao do local de culto, sustento pastoral e missionario, acao social, literatura evangelistica, entre outras -- que exigem recursos financeiros. O principio paulino de que "os que anunciam o evangelho vivam do evangelho" (1 Corintios 9:14) permanece em vigor, e os pastores que se dedicam integralmente ao ministerio precisam ser sustentados.
Segundo, a contribuicao e um ato de adoracao e de reconhecimento de que tudo pertence a Deus (Salmo 24:1). Nao e pagamento, mas devolucao. Como afirmou Davi: "Porque tudo vem de ti, e do que e teu to damos" (1 Cronicas 29:14). Contribuir e expressao concreta de fe, gratidao e dependencia do provedor divino.
Terceiro, a pratica de separar regularmente uma porcao dos rendimentos para Deus disciplina a vida financeira do crente e combate a idolatria do dinheiro. Jesus ensinou que "onde estiver o vosso tesouro, ali estara tambem o vosso coracao" (Mateus 6:21). Contribuir para o Reino e um investimento com retorno eterno.
6 CONCLUSAO
Apos percorrer o desenvolvimento biblico do dizimo -- dos patriarcas a Lei, dos profetas a Jesus, e de Jesus aos apostolos --, e possivel tracar algumas conclusoes fundamentadas exclusivamente nas Escrituras.
Primeira: o dizimo, como pratica de devolver a decima parte a Deus, precede a Lei Mosaica (Abraao e Jaco) e foi plenamente incorporado a ela como mandamento obrigatorio para Israel, servindo a um triplo proposito: sustento do culto e do sacerdocio, adoracao comunitária e assistencia social aos necessitados. A infidelidade nos dizimos era tratada como roubo contra Deus e resultava em maldicao (Malaquias 3:8-9), enquanto a fidelidade atraia bencaos materiais e espirituais (Malaquias 3:10-12; Proverbios 3:9-10).
Segunda: Jesus validou a pratica do dizimo (Mateus 23:23), mas a inseriu em um contexto de prioridades espirituais superiores. O Novo Testamento, porem, nao reitera o mandamento do dizimo como obrigacao legal para a igreja. Em vez disso, estabelece principios mais elevados: generosidade, proporcionalidade, voluntariedade, alegria e regularidade (1 Corintios 16:2; 2 Corintios 9:6-7). A mudanca do sacerdocio levitico para o sacerdocio de Cristo (Hebreus 7) alterou a forma como o povo de Deus contribui, mas nao eliminou a responsabilidade de sustentar a obra do Senhor.
Terceira: quanto ao percentual, o Novo Testamento nao fixa 10% ou qualquer outro numero. Para aqueles que estao na graca, a pergunta nao e mais "qual o minimo que devo dar?", mas "quanto posso dar com alegria e generosidade para a gloria de Deus?". O dizimo de 10% pode ser adotado como referencia util e como disciplina espiritual minima, mas nao deve ser imposto como lei, sob pena de retroceder ao legalismo que Paulo combateu na epistola aos Galatas. Ao mesmo tempo, ofertar menos de 10% sem razao justificavel pode revelar falta de generosidade e de compromisso com o Reino.
Quarta: as consequencias da fidelidade ou infidelidade na contribuicao sao reais. Deus honra a fe e a generosidade do Seu povo com provisao, protecao e contentamento (2 Corintios 9:8-11). A avareza e a retencao egoista endurecem o coracao e revelam idolatria (Mateus 6:24). Contudo, a motivacao para contribuir deve ser a gratidao pela graca recebida, nao o medo da maldicao ou a ambicao da prosperidade material.
Em suma, a igreja contemporanea encontrara no Novo Testamento nao uma tabela de percentuais, mas um chamado a uma mordomia radical e alegre, em que cada crente, "segundo propos no seu coracao", contribui generosamente para que o evangelho avance, os pastores sejam sustentados e os necessitados sejam amparados -- pois "Deus ama ao que da com alegria" (2 Corintios 9:7).
REFERENCIAS
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