Cristão e Eleições: Como Escolher Candidatos e a Esperança do Salvo
Este artigo examina, à luz das Sagradas Escrituras (versão Almeida Corrigida Fiel) e da Declaração de Fé das Assembleias de Deus (Capítulo XVI), o que a Bíblia ensina sobre a escolha de reis e candidatos, demonstrando a soberania de Deus sobre os governantes, os critérios bíblicos para escolher autoridades, o dever de submissão com o limite da obediência a Deus, a influência do cristão verdadeiro na vida pública — pela oração, pelo exercício consciente do voto e pelo testemunho — e a perspectiva de futuro e esperança do cristão salvo em Cristo, cuja cidadania está nos céus e cujo Rei reina para sempre.
Neste artigo
"Não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles" (1 Samuel 8:7). Desde os tempos do Antigo Testamento, a escolha de governantes ocupa um lugar central na vida dos povos, e a resposta de Deus ao pedido de Israel por um rei mostra que essa escolha é, antes de tudo, uma questão espiritual. Em períodos eleitorais, o cristão se defronta com as mesmas perguntas de fundo: como escolher candidatos? A Bíblia aprova a participação do crente na vida pública? Qual deve ser a sua influência nesses momentos e onde repousa a sua esperança?
A Declaração de Fé das Assembleias de Deus, em seu Capítulo XVI (Sobre a Igreja e o Estado), ensina que Deus constituiu as autoridades para administrar a vida em comunidade e que, "como cidadãos cristãos, podemos votar, ser votados e participar da organização e da atividade do poder estatal". Este artigo propõe-se a examinar, à luz da Palavra de Deus, o que a Bíblia diz sobre a escolha de reis e candidatos, se essa escolha é aprovada por Deus, qual é a influência do cristão verdadeiro nesses momentos e qual a perspectiva de futuro e esperança do cristão salvo em Cristo.
O Governo Soberano de Deus Sobre os Reis e as Nações
A Bíblia apresenta Deus como o Senhor absoluto da história e das nações. Nenhum governante chega ao poder fora do seu propósito soberano: "ele remove os reis e estabelece os reis" (Daniel 2:21). O profeta Daniel declara ainda que o Altíssimo "tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer" (Daniel 4:17). Salomão reconhece essa mesma soberania ao afirmar que "como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer" (Provérbios 21:1). E até a sabedoria dos governantes procede de Deus: "Por mim reinam os reis e os príncipes decretam justiça" (Provérbios 8:15).
Disso decorre o fundamento do ensino apostólico: "não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus" (Romanos 13:1). A autoridade civil é, portanto, instituição divina para a preservação da ordem e da justiça na sociedade. Compreender esse princípio é o ponto de partida para o cristão avaliar a política sem desespero e sem idolatria: os governantes são instrumentos nas mãos de Deus, mas jamais ocupam o lugar de Deus.
A Escolha de Reis na Bíblia: do Modelo de Deus ao Pedido do Povo
A legislação de Israel previa a instituição do rei e, ao mesmo tempo, subordinava a escolha à vontade de Deus. Em Deuteronômio, o Senhor ordena: "Porás certamente sobre ti como rei aquele que escolher o Senhor teu Deus" (Deuteronômio 17:15). O rei deveria ser "dentre teus irmãos" e não multiplicar para si cavalos (Deuteronômio 17:16); deveria ter a lei consigo e lê-la "todos os dias da sua vida", para que aprendesse "a temer ao Senhor seu Deus" (Deuteronômio 17:19); e o seu coração não deveria "se levante sobre os seus irmãos" (Deuteronômio 17:20). O modelo divino não era o de um monarca absoluto, mas o de um servidor humilde, submisso à lei de Deus.
Quando o povo exigiu um rei "como o têm todas as nações" (1 Samuel 8:5), o pedido pareceu mal aos olhos de Samuel, e o Senhor revelou o verdadeiro sentido daquela insistência: "não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles" (1 Samuel 8:7). O desejo de ser "como todas as outras nações" (1 Samuel 8:20) manifestava um coração que já não queria Deus como Rei. Anos depois, Samuel resumiu a situação com sobriedade: "Agora, pois, vedes aí o rei que elegestes e que pedistes" (1 Samuel 12:13). E o profeta Oséias denunciou o mesmo erro em sua geração: "Eles fizeram reis, mas não por mim; constituíram príncipes, mas eu não o soube" (Oséias 8:4).
A lição é clara: a escolha de governantes é uma decisão espiritual antes de ser uma decisão política. Quando o povo escolhe fora dos critérios de Deus, colhe as consequências da sua rebeldia; quando se submete à direção do Senhor, é abençoado.
Os Critérios Bíblicos Para Escolher Autoridades
A Bíblia não indica partidos nem nomes, mas estabelece critérios de caráter e de justiça. Ao constituir os auxiliares de Moisés, o Senhor ordenou: "dentre todo o povo procura homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que odeiem a avareza" (Êxodo 18:21). Esses traços formam o retrato das qualidades que devem ser buscadas em quem exerce autoridade: competência, temor a Deus, veracidade e integridade — isto é, rejeição à ganância.
As Escrituras insistem no caráter justo do governante: "Haverá um justo que domine sobre os homens, que domine no temor de Deus" (2 Samuel 23:3). E advertem que a bênção de uma nação depende da retidão: "A justiça exalta os povos, mas o pecado é a vergonha das nações" (Provérbios 14:34). O contraste é vívido: "Quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo geme" (Provérbios 29:2).
Acima das aparências, o critério definitivo é o coração, como Deus declarou ao profeta Samuel: "o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração" (1 Samuel 16:7). Por isso o cristão não escolhe apenas por simpatia, conveniência ou promessa de vantagem pessoal, mas pondera o caráter, a retidão e o temor de Deus dos candidatos. A Bíblia não canoniza nenhum projeto político; ela aprova a escolha de líderes que temem a Deus e praticam a justiça.
A Submissão às Autoridades e o Limite da Obediência
Escolhido o governante, o cristão é chamado a se submeter à autoridade constituída, não por temor servil, mas por consciência: "Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores" (Romanos 13:1), pois "quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus" (Romanos 13:2). A autoridade é "ministro de Deus para teu bem" (Romanos 13:4), e cabe ao crente cumprir as obrigações civis: "dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra" (Romanos 13:7).
O apóstolo Pedro acrescenta: "Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior" (1 Pedro 2:13), e conclui: "Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao rei" (1 Pedro 2:17). Paulo exorta Tito a lembrar aos crentes "que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra" (Tito 3:1).
Essa submissão, porém, não é absoluta. Temos a Bíblia Sagrada como a nossa única regra de fé e prática, e, em caso de conflito entre o que o Estado ordena e o que Deus manda, prevalece a Palavra: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29). Foi assim que o Senhor distinguiu as duas esferas: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22:21). A Declaração de Fé das Assembleias de Deus ensina que a Igreja está submetida ao Estado "tendo como limite de tal submissão os preceitos bíblicos". O cristão obedece às autoridades em tudo quanto não contrarie a Escritura; quando há conflito, a consciência iluminada pela Palavra o conduz a obedecer a Deus antes que aos homens.
A Influência do Cristão Verdadeiro na Vida Pública
O Senhor definiu a vocação do crente no mundo com duas imagens: "Vós sois o sal da terra" e "Vós sois a luz do mundo" (Mateus 5:13-14). O sal preserva e dá sabor; a luz revela e orienta. É exatamente essa a influência que o discípulo de Cristo é chamado a exercer na sociedade — inclusive no tempo das eleições. E essa influência não se dá pela imposição nem pela violência, mas pelo testemunho, pela oração e pelo exercício responsável da cidadania.
Em primeiro lugar, o cristão influencia pela intercessão. A Palavra ordena "que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens" (1 Timóteo 2:1), "pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade" (1 Timóteo 2:2). Esse dever se estende ao bem da própria cidade: "E procurai a paz da cidade, para onde vos fiz transportar em cativeiro, e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz" (Jeremias 29:7).
Em segundo lugar, o cristão influencia pelo exercício consciente da cidadania. A Declaração de Fé afirma que o sufrágio decorre naturalmente da condição de cidadão, de modo que "como cidadãos cristãos, podemos votar, ser votados e participar da organização e da atividade do poder estatal". Votar, portanto, não é uma concessão à política, mas um direito e uma responsabilidade que o crente exerce à luz da fé, buscando o bem comum e a promoção da justiça.
Em terceiro lugar, o cristão influencia pelo testemunho e pelas obras. Antes de transformar a sociedade, a fé transforma o indivíduo: "buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas" (Mateus 6:33). O crente ora: "Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mateus 6:10) — e vive de modo coerente com essa oração, praticando a justiça, amando a benignidade e andando humildemente com Deus (Miqueias 6:8).
Por fim, o cristão não deposita a sua confiança na política. "Não confieis em príncipes, nem em filho de homem, em quem não há salvação" (Salmo 146:3), pois "uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor nosso Deus" (Salmo 20:7). A esperança do crente não está no candidato vencedor, mas no Rei que venceu a morte.
A Esperança do Cristão Salvo em Cristo
Por mais importantes que sejam as eleições, elas não são o horizonte último do cristão. A sua cidadania definitiva está no céu: "Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo" (Filipenses 3:20). O próprio Senhor declarou a natureza do seu reinado: "O meu reino não é deste mundo" (João 18:36).
Essa esperança não é fuga do mundo, mas força para viver bem nele. Os cristãos "nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos" (1 Pedro 1:3), para "uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus" (1 Pedro 1:4). O crente aguarda "a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo" (Tito 2:13) e, "segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça" (2 Pedro 3:13). E mesmo quando a política decepciona, ele se lembra de que "o Deus de esperança" nos enche "de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo" (Romanos 15:13).
A esperança do salvo tem nome e trono: Cristo. Nele se cumpre a promessa de que "do aumento deste principado e da paz não haverá fim" (Isaías 9:7). Um dia, "os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre" (Apocalipse 11:15). Então será manifesto o título que já lhe pertence: "Rei dos reis, e Senhor dos senhores" (Apocalipse 19:16). Diante desse Rei, toda eleição humana é apenas um capítulo — passageiro e imperfeito — da história que Deus conduz ao seu fim glorioso.
Conclusão
Este artigo demonstrou, à luz da Bíblia e da Declaração de Fé das Assembleias de Deus, que: (1) Deus é soberano sobre os reis e as nações, e toda autoridade é por Ele ordenada; (2) a escolha de governantes, na Bíblia, é uma decisão espiritual, e Deus dá critérios claros — temor a Deus, verdade, justiça e rejeição à avareza; (3) o cristão deve submeter-se às autoridades, tendo como limite a obediência a Deus; (4) a influência do cristão verdadeiro se exerce pela oração, pelo exercício consciente do voto e pelo testemunho de uma vida justa; e (5) a esperança do salvo repousa em Cristo, o Rei dos reis, cujo reino não terá fim.
Em tempos de eleição, portanto, o cristão não se omite nem se entrega à paixão partidária. Ele vota com discernimento, ora com perseverança, vive com integridade e espera com confiança. Pois, se "a justiça exalta os povos" (Provérbios 14:34) e "bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo ao qual escolheu para sua herança" (Salmo 33:12), a maior contribuição que o crente pode dar à sua pátria é ser sal da terra e luz do mundo, apontando para o Reino que não passa. Amém.
Para se aprofundar: Declaração de Fé das Assembleias de Deus, a confissão doutrinária das Assembleias de Deus que trata, no Capítulo XVI, da Igreja e do Estado, das autoridades constituídas e do direito de sufrágio.
Referências
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- DECLARAÇÃO DE FÉ das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. Capítulo XVI: Sobre a Igreja e o Estado.
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