As Criaturas Espirituais: Anjos e Demônios à Luz das Escrituras
Este artigo examina a doutrina das criaturas espirituais — anjos e demônios — à luz das Sagradas Escrituras (versão Almeida Corrigida Fiel) e da Declaração de Fé das Assembleias de Deus (Capítulo VIII), abordando a criação e a realidade dos anjos, seus nomes e natureza, a organização angelical (arcanjos, querubins e serafins), o Anjo do Senhor, os ofícios dos anjos, a queda dos anjos rebeldes (demônios), a pessoa de Satanás como maioral dos demônios e a vitória de Cristo sobre as forças do mal. Conclui-se que os anjos são espíritos ministradores a serviço de Deus e dos salvos, e que Satanás e seus demônios, já julgados, não podem resistir ao poder do nome de Jesus.
Neste artigo
"Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?" (Hebreus 1:14). O mundo espiritual é real, embora invisível aos olhos humanos. A Bíblia revela a existência de criaturas espirituais criadas por Deus — os anjos —, que o servem e auxiliam o seu povo. Revela também que uma parte desses anjos se rebelou, tornando-se demônios, sob a liderança de Satanás, o adversário de Deus e dos homens. Compreender essa realidade é essencial para a vida cristã e para a batalha espiritual.
A Declaração de Fé das Assembleias de Deus, em seu Capítulo VIII, afirma que os anjos "são uma ordem sobrenatural de seres celestiais criados por Deus antes da fundação do mundo". Este artigo propõe-se a examinar, à luz da Palavra de Deus, quem são os anjos, qual a sua natureza e os seus ofícios, quem são os demônios e o seu maioral, e qual é a vitória que Cristo assegura ao crente sobre as forças das trevas.
A Criação e a Realidade dos Anjos
Os anjos são criaturas de Deus, e não emanações cósmicas ou figuras de retórica. Eles foram criados por Deus antes da fundação do mundo, como o indica a passagem em que "as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus rejubilavam" quando Deus lançava os fundamentos da terra (Jó 38:7). Neemias declara que Deus fez "o céu, o céu dos céus e todo o seu exército" (Neemias 9:6), e o salmista convoca: "Louvai-o, todos os seus anjos; louvai-o, todos os seus exércitos" (Salmo 148:2).
O termo "anjo" significa "mensageiro", tanto no hebraico (malak) quanto no grego (ángelos). Os anjos são seres reais, espirituais e pessoais, que habitam os céus e formam uma multidão incontável: "era o número deles milhões de milhões, e milhares de milhares" (Apocalipse 5:11). Jesus referiu-se a eles como seres que "nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus" (Mateus 18:10). Eles povoam os céus em milícias espirituais organizadas: "apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais" (Lucas 2:13).
Os Nomes e a Natureza dos Anjos
As Escrituras empregam diversos nomes para os anjos, revelando sua natureza e posição. São chamados de "santos" (Deuteronômio 33:2), "vigias" ou "vigilantes" (Daniel 4:13), "exércitos" (Salmo 148:2) e, no Novo Testamento, "tronos", "dominações", "principados" e "potestades" (Colossenses 1:16). Essas designações indicam que os anjos são organizados em diferentes ordens e graus de autoridade. O apóstolo Paulo descreve a hierarquia espiritual ao afirmar que a luta do crente é "contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade" (Efésios 6:12).
Os anjos são criaturas espirituais dotadas de poder extraordinário: "Bendizei ao Senhor, todos os seus anjos, vós que excedeis em força, que guardais os seus mandamentos, obedecendo à voz da sua palavra" (Salmo 103:20). Eles são superiores aos seres humanos em força e poder (2 Pedro 2:11), possuem conhecimento superior, mas não são oniscientes, pois desconheciam certos planos de Deus e anelam perscrutar o evangelho (1 Pedro 1:12). São seres pessoais e morais, que recusam adoração — "adora a Deus" (Apocalipse 19:10) — e não se reproduzem nem morrem: "já não podem mais morrer; pois são iguais aos anjos" (Lucas 20:36). Existem grandes multidões deles no céu, mas apenas Gabriel (Lucas 1:19) e Miguel (Judas 9) são identificados por nome na Bíblia.
A Organização Angelical
Os anjos acham-se organizados de forma hierárquica. Os arcanjos são os maiorais dos anjos, como indica o prefixo "arc". Miguel é o arcanjo mencionado nas Escrituras, "o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo" (Daniel 12:1), e é descrito como aquele que, ao contender com o diabo, "não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda" (Judas 9). A existência de outros arcanjos é sugerida pela expressão "Miguel, um dos primeiros príncipes" (Daniel 10:13).
Os querubins são outra ordem angelical elevada, associados à presença, à grandeza e à majestade de Deus. Aparecem pela primeira vez como guardiões do jardim do Éden: "pôs querubins ao oriente do jardim do Éden" (Gênesis 3:24). Deus habita entre os querubins (1 Crônicas 13:6), e Ezequiel os descreve com características simbólicas de homem, leão, boi e águia (Ezequiel 1:5-10). Os serafins são outra ordem elevada, ligada diretamente à adoração divina. Isaías os viu clamando: "Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória" (Isaías 6:3). Com seis asas, cobrem o rosto e os pés em reverência e voam em serviço, revelando a santidade de Deus.
O Anjo do Senhor
O Anjo do Senhor ocupa um lugar especial nas Escrituras. Em diversas passagens do Antigo Testamento, ele é identificado com o próprio Deus e aparece como uma manifestação pré-encarnada de Jesus Cristo. Na sarça ardente, "apareceu-lhe o Anjo do Senhor em uma chama de fogo... e vendo o Senhor que se virava para ver, bradou Deus a ele do meio da sarça" (Êxodo 3:2,4). Aqui, o Anjo do Senhor e Deus são apresentados como a mesma pessoa.
O Anjo do Senhor também aparece distintamente em outras passagens, falando com Deus e recebendo ordens (Zacarias 1:12-13). Em Gênesis 22:11-12, é o Anjo do Senhor quem impede Abraão de sacrificar Isaque, e Jesus declarou que Abraão viu o seu dia e se alegrou (João 8:56). Essas aparições são entendidas como cristofanias — manifestações do Filho de Deus antes da sua encarnação. Ele não é um anjo criado, mas o próprio Deus que se manifesta em forma angelical para comunicar-se com os homens.
Os Ofícios dos Anjos
Os anjos são, antes de tudo, adoradores e servos de Deus: "Bendizei ao Senhor, todos os seus anjos... que guardais os seus mandamentos, obedecendo à voz da sua palavra" (Salmo 103:20). Eles louvam a Deus incessantemente no céu (Apocalipse 7:11-12) e na terra, como na ocasião do nascimento de Jesus (Lucas 2:13-14). Intermediaram a entrega da Lei no Sinai (Atos 7:53; Gálatas 3:19), estão presentes nos cultos da Igreja (1 Coríntios 11:10) e observam a vida dos crentes (1 Coríntios 4:9; 1 Timóteo 5:21).
Eles também executam o juízo de Deus: um anjo feriu 185 mil assírios em uma só noite (2 Reis 19:35) e outro feriu Herodes (Atos 12:23). São mensageiros divinos, anunciando a Zacarias o nascimento de João Batista (Lucas 1:13) e a Maria o nascimento de Jesus (Lucas 1:26-27). Assistiram o Senhor Jesus no deserto e no Getsêmani (Marcos 1:13; Lucas 22:43), anunciaram a sua ressurreição (Mateus 28:5-6) e estiveram presentes na sua ascensão (Atos 1:10-11). Acompanharão o Senhor na sua segunda vinda (Mateus 25:31), separarão o joio do trigo (Mateus 13:39-41) e ajuntarão os eleitos (Mateus 24:31). Além disso, socorrem os servos de Deus (Atos 12:7-8; Salmo 91:11-12) e transportam os salvos ao seu destino final (Lucas 16:22). Sobre o "anjo da guarda", a Declaração de Fé esclarece que a ideia de um anjo designado individualmente a cada pessoa não tem sustentação bíblica, pois Mateus 18:10 indica que os anjos estão na presença de Deus, e não que cuidam individualmente de cada ser humano.
A Queda dos Anjos: os Demônios
Nem todos os anjos permaneceram fiéis a Deus. As Escrituras revelam que um grupo de anjos rebelou-se contra o Criador: "se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o Juízo" (2 Pedro 2:4). Judas acrescenta que são "anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação" (Judas 6). Esses anjos decaídos são os demônios, espíritos imundos e malignos, que atuam sob a liderança de Satanás.
Os demônios são espíritos maus, desprovidos de corpo, capazes de possuir corpos humanos e de animais. As Escrituras registram diversas possessões demoníacas, como a do gadareno (Marcos 5:2-5) e a de Maria Madalena, da qual saíram sete demônios (Lucas 8:2). Os efeitos dessas possessões incluem força maligna incomum, autodestruição, mudez, surdez, cegueira e convulsões. Todavia, é importante distinguir enfermidade de possessão, pois nem toda doença é de origem demoníaca. Apesar do poder sobrenatural que possuem, os demônios nada podem diante de Jesus: "Conheço a Jesus e bem sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?" (Atos 19:15). O crente em Jesus recebeu autoridade para expulsá-los: "expulsarão os demônios" (Marcos 16:17).
Satanás: o Maioral dos Demônios
Satanás, cujo nome significa "adversário" ou "opositor", é o chefe dos demônios. A Bíblia também o chama de Diabo ("caluniador"), Belzebu ("príncipe dos demônios"), Tentador, grande dragão, antiga serpente e pai da mentira. Ele foi criado perfeito — "Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti" (Ezequiel 28:15) —, mas o orgulho o levou à rebelião: "E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono... serei semelhante ao Altíssimo" (Isaías 14:13-14). Por isso, foi expulso do céu com os anjos que o seguiram.
O modus operandi de Satanás e dos seus demônios é a mentira e o engano. Jesus declarou que ele "foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira" (João 8:44). Ele "cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo" (2 Coríntios 4:4). Pedro adverte: "o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar" (1 Pedro 5:8). O poder de Deus sobre ele, contudo, é total e absoluto: Satanás só age dentro dos limites que Deus lhe permite (Jó 1:12). O seu destino já está selado: "o príncipe deste mundo está julgado" (João 16:11), e o fogo eterno foi "preparado para o diabo e seus anjos" (Mateus 25:41).
A Vitória de Cristo sobre as Forças do Mal
A vitória sobre Satanás e os demônios já foi conquistada por Jesus Cristo. Logo no início do seu ministério, Jesus venceu o diabo no deserto, respondendo a cada tentação com a Palavra de Deus e ordenando: "Vai-te, Satanás" (Mateus 4:10). A sua vitória foi completa: "Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo" (1 João 3:8). Na cruz, Cristo triunfou sobre os principados e potestades, expondo-os publicamente (Colossenses 2:15). A sua ressurreição selou a derrota definitiva do mal.
O crente participa dessa vitória em Cristo. O Senhor deu autoridade à sua Igreja para resistir ao diabo e expulsar demônios em seu nome (Marcos 16:17; Mateus 10:8). A armadura espiritual descrita em Efésios 6:11-18 capacita o cristão a "estar firmes contra as astutas ciladas do diabo" (Efésios 6:11). Tiago exorta: "sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós" (Tiago 4:7). O destino final de Satanás e dos demônios é o lago de fogo, onde serão atormentados para todo o sempre (Apocalipse 20:10). Até lá, o crente vive em vigilância, mas em plena segurança: "sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca... o maligno não lhe toca" (1 João 5:18).
Conclusão
Este artigo demonstrou, à luz da Bíblia e da Declaração de Fé das Assembleias de Deus, que: (1) os anjos são criaturas espirituais criadas por Deus, reais e organizadas em milícias celestiais; (2) possuem nomes que revelam sua natureza e hierarquia, incluindo arcanjos, querubins e serafins; (3) o Anjo do Senhor é uma manifestação pré-encarnada de Cristo; (4) os anjos servem a Deus em adoração, comunicação e auxílio aos salvos; (5) uma parte dos anjos rebelou-se, tornando-se demônios sob a liderança de Satanás; (6) Satanás é o adversário de Deus e dos homens, mas seu poder é limitado e seu destino está selado; e (7) Cristo já venceu o mal, e o crente participa dessa vitória pela fé e pela autoridade do seu nome.
O mundo espiritual é real, e o crente não pode ignorá-lo. Contudo, não há motivo para temor, pois "maior é o que está em vós do que o que está no mundo" (1 João 4:4). Que cada cristão vista a armadura de Deus, resista ao diabo e confie na vitória que Cristo já conquistou na cruz, aguardando o dia em que o dragão será definitivamente lançado no lago de fogo e o povo de Deus reinará com o Senhor para sempre. Amém.
Referências
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- DECLARAÇÃO DE FÉ das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. Capítulo VIII: Sobre as Criaturas Espirituais.
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